Sobre as Sombras na Aquarela

Tudo começou com as nuvens.

A ideia surgiu da necessidade de mostrar a evolução de uma pesquisa feita sobre monocromia através da técnica da aquarela e colagem.

Foi à partir do meu olhar nas nuvens que surgiu o "momento sombras na aquarela". Após a escolha do suporte, as imagens começaram a brotar em minha mente de forma aleatória, de modo claro e objetivo, facilitando o desenvolvimento do trabalho. O fundo branco do papel, muitas vezes em destaque, realça as nuances e sobreposições das camadas, contrastando tons claros e escuros, assim como a luminosidade, algumas vezes oscilante, mais ou menos intensa, que brinca, sugerindo formas, movimentos e até mesmo sensações, destacando as características da aquarela aliada à colagem.

As inúmeras possibilidades que o tema oferece, associadas à técnica, tráz como resultado a simplicidade da proposta que, destacando a cor pura, em contraste com o papel, evidencia um grande prazer em criar.

Aline Hannun

8 de abril de 2013

Marcel Duchamp e 100 anos de Armory Show



Mostra que introduziu Duchamp nos EUA e deslocou eixo das artes completa cem anos

Em 1913 a Exibição Internacional de Arte Moderna
eletrizou Manhattan e entrou para a história como Armory Show, por ter acontecido num depósito militar da rua 26 com a avenida Lexington.

Naquele fevereiro, fuzis e canhões deram lugar a armas estéticas, como Nu Descendo a Escada nº2 de Marcel Duchamp, o Nu Azul, de Henri Matisse, peças de Francis Picabia, esculturas de Constantin Brancusi e todo um arsenal de 1.400 obras de europeus e americanos.


Nu Descendo a Escada n°2, obra de Marcel Duchamp que esteve no Armory Show de Nova York há cem anos.

Numa Nova York ainda provinciana, onde mulheres marchavam pelo direito ao voto, a vanguarda europeia causou certa indigestão intelectual.

Quando a mostra foi a Chicago, estudantes de arte quiseram queimar uma efígie de Matisse e atearam fogo em réplicas de suas obras.


Nu Azul - Henri Matisse - 1907

Muitos tacharam de primitivo o artista, que teria errado ao pintar dedos a mais ou a menos nos pés da modelo que se exibia nua na tela.

Mudança de eixo


Duchamp, que quatro anos depois causaria novo escândalo com seu urinol em Nova York, fazia ali sua estreia na cidade que se tornou, com o Armory Show, o centro cultural do mundo, desbancando Paris, então farol das artes.

 

Urinol - Marcel Duchamp

Foi também o início das exposições-espetáculo, eventos do grand monde para ver e ser visto que hoje se multiplicam no circuito da arte.

"Isso tudo aconteceu no mesmo lugar, debaixo do mesmo teto", conta a historiadora americana Laurette McCarthy. "Embora a classe artística já conhecesse parte dessa produção, milhares de nova-iorquinos foram à exposição como a um evento social, curiosos pelo teor das críticas nos jornais."

Gail Stavitsky, outra historiadora que organiza com McCarthy uma mostra em homenagem ao centenário do Armory Show, sustenta, aliás, que a crítica de arte nos Estados Unidos surgiu com as reações acaloradas à mostra.

"Esse foi o nascimento da crítica de arte americana", diz Stavitsky. "Houve uma explosão do pensamento crítico, os jornais passaram a publicar resenhas de exposições quase todos os dias. Isso ajuda a derrubar o mito de que a América era um deserto intelectual até a o surgimento do expressionismo abstrato."

Nesse ponto, o movimento artístico que pôs Nova York no mapa algumas décadas mais tarde, com os arroubos agressivos de Jackson Pollock, também teve seu embrião no choque causado pela avalanche das vanguardas europeias do Armory Show.

"Até então, as cores na arte americana eram quase mortas", analisa Marilyn Kushner, da Sociedade Histórica de Nova York. "Aquele azul do Matisse e as cores vibrantes dos fovistas foram um assalto aos sentidos."

Kushner lembra também que, além das cores, as proporções distorcidas das figuras nas telas e a economia formal das obras de Brancusi causaram grande espanto.

Colecionismo

Foi um espanto rentável. Organizada pela extinta Associação de Pintores e Escultores Americanos, a mostra, caríssima para os padrões da época, com o transporte transatlântico de obras e artistas, teria de se bancar com a venda das peças em Nova York.

No afã por entrar na moda, a aristocracia americana arrematou grande parte das peças. Único dos grandes museus da cidade que já existia em 1913, o Metropolitan comprou o seu primeiro Cézanne.

Edward Hopper, então longe da fama que conquistaria mais tarde, vendeu sua primeira pintura, Sailing, em que retratou um veleiro.



Sailing - Edward Hopper - 1911

Do total de 250 peças vendidas, grande parte ajudou a formar coleções de peso, como a de Lillie Bliss, herdeira de um magnata têxtil que doou anos mais tarde centenas de peças de Matisse, Cézanne e Picasso para criar o MoMA, em Nova York.

"Grandes coleções de arte começaram com o Armory Show", conta Stavitsky. Tanto que uma feira de arte que ocorre até hoje na metrópole americana leva o nome da mostra. "Foi o ponto de partida para o levante das galeriasde arte."






Nenhum comentário:

Postar um comentário