Sobre as Sombras na Aquarela

Tudo começou com as nuvens.

A ideia surgiu da necessidade de mostrar a evolução de uma pesquisa feita sobre monocromia através da técnica da aquarela e colagem.

Foi à partir do meu olhar nas nuvens que surgiu o "momento sombras na aquarela". Após a escolha do suporte, as imagens começaram a brotar em minha mente de forma aleatória, de modo claro e objetivo, facilitando o desenvolvimento do trabalho. O fundo branco do papel, muitas vezes em destaque, realça as nuances e sobreposições das camadas, contrastando tons claros e escuros, assim como a luminosidade, algumas vezes oscilante, mais ou menos intensa, que brinca, sugerindo formas, movimentos e até mesmo sensações, destacando as características da aquarela aliada à colagem.

As inúmeras possibilidades que o tema oferece, associadas à técnica, tráz como resultado a simplicidade da proposta que, destacando a cor pura, em contraste com o papel, evidencia um grande prazer em criar.

Aline Hannun

26 de agosto de 2015

"Retratos de artistas e amigos" por John Singer Sargent no MET



Portraits of Artists & Friends by John Singer Sargent - The Metropilitan Museum of Art - MET

Ao longo de sua carreira, o pintor americano John Singer Sargent (1856-1925), pintou retratos excepcionais de artistas, escritores, atores, dançarinos e músicos, muitos dos quais eram seus amigos próximos. Esses retratos revelam o lado íntimo, espirituoso e espontâneo, diferente de um retrato formal. Para a criação das obras Sargent fazia um profundo estudo dos personagens, contendo registros de relacionamentos, influências, aspirações.
 


"Auto-Retrato" - óleo s. canvas - 1886 - John Singer Sargent

"Retratos de Artistas e Amigos" reúne noventa e duas pinturas e desenhos de pessoas do círculo artístico de Sargent. Os personagens vistos através dos olhos do artista representam uma gama de figuras de destaque nas artes criativas da época, tais como Claude Monet, Auguste Rodin, os escritores Robert Louis Stevenson e Henry James, o ator Ellen Terry, entre outros.
 
 
"Claude Monet in his Bateau-Atelier" - óleo s. canvas - 1887 - John Singer Sargent
 

 
"Henry James" - óleo s. canvas - 1913 - John Singer Sargent 

A exposição apresenta alguns dos mais célebres retratos de Sargent como o " Dr. Pozzi em casa" (Hammer Museum), pinturas deslumbrantes criadas na zona rural italiana como "Grupo com guarda-sóis"  ou "Siesta", coleção particular, e aquarelas brilhantes "No Generalife" (The Metropolitan Museum of Art), e o retrato de seu amigo íntimo "Vernon Lee" (Tate).
 

 
"Dr. Pozzi at Home" -  óleo s. canvas - 1881 - John Singer Sargent



"Siesta" - aquarela - 1907 - John Singer Sargent

A exposição explora as amizades entre Sargent e seus modelos artísticos, bem como a importância destas relações para sua vida e arte.
 

 
"Pailleron Crianças" - óleo s. canvas - 1880 - John Singer Sargent
 
Organizada pela National Portrait Gallery, Londres, em colaboração com o Museu Metropolitano de Arte.
 



Sobre Madame X 
 
"Madame X". Ícone da coleção do Met.
 
 
"Madame X" (Madame Pierre Gautreau) -  óleo s. canvas - 1883 - John Singer Sargent
 
Os visitantes reúnem-se para refletir sobre o glamour excêntrico deste retrato corajoso que caracteriza a esposa americana de um banqueiro francês. Madame X é vista também em outros retratos da alta sociedade elegante.  

Inicialmente, em 2013, "Madame X", não foi incluída na exposição "Retratos de artistas e amigos" de Sargent no MET, por não fazer parte do tema, (não era artista  e nem amiga), ela não se encaixava nos parâmetros originais da exposição. Na última primavera em Londres, o assunto foi repensado, a obra foi aceita e passou a fazer parte da exposição. 
 


"Madame X" (Madame Pierre Gautreau) - grafite s. papel off-white - 1883 - John Singer Sargent
 
Ao longo de seus primeiros anos em Paris, Sargent construiu sua reputação, convencendo amigos e membros notáveis ​​da sociedade da moda para posar para ele e, em seguida, exibindo essas obras no Salão de Paris. Este é o caso de "Madame X", seu mais famoso retrato.

Virginie Gautreau Avegno (1859-1915), expatriada de Louisiana, casada com um banqueiro francês. Era uma figura familiar na sociedade parisiense, conhecida por sua aparência astuta, acentuada com cosméticos e roupas dramáticas. O ambicioso jovem Sargent era fascinado por ela e se comprometeu a retratá-la, na esperança de melhorar sua reputação. 


 
"Madame X" (Madame Pierre Gautreau) - 1885 - John Singer Sargent em seu estúdio em Paris

A pintura foi um sucesso escandaloso no Salão de Paris em 1884. Os espectadores e os críticos acharam o retrato ofensivo, feio, e excêntrico, Gautreau (Madame X) e sua mãe imploraram para Sargent remover a pintura da exposição. O artista, ambicioso que era, declarou que só tinha pintado Gautreau como ela era.
 
Após a exposição, Sargent repintou a alça do vestido de Gautreau na posição vertical, e uma vez que não foi um trabalho encomendado, ele manteve a imagem consigo e passou a exibi-la com orgulho em seu estúdio.
 
Quando ele vendeu a pintura para o MET, após a morte do Gautreau, em 1916, ele declarou. " Foi a melhor coisa que fiz".
 
 
"Uma rajada de vento" - óleo s. canvas - 1883 - John Singer Sargent


 
"Ramón Subercaseaux em uma gôndola" - óleo s. tela - 1880 - John Singer Sargent
 
 
Serviço
 
"Portraits of Artists & Friends" by John Singer Sargent 

Onde: The Metropolitan Museum of Art - MET - 1000 Fifth Avenue (at 82nd Street), New York, NY 10028 - www.metmuseum.org
 
Quando: Até 4/10

Quanto: Adulto U$25 - Idosos (65) U$17 - Estudantes U$12 - Até 12 anos entrada gratuíta
 
 
Assista ao vídeo para conhecer mais obras do artista.









 

19 de agosto de 2015

Paisagem Opaca no MAM



Tarsila do Amaral

Complementando a exposição "A memória plástica do Brasil moderno" de Guignard, que apresentamos na semana passada. Felipe Chaimovich, curador do MAM, selecionou mais 26 obras do acervo do museu para a mostra “Paisagem Opaca”, exibida na Sala Paulo Figueiredo no mesmo período. Entre as mais de 5 mil obras da coleção, o curador optou por trabalhos que revelam a subjetividade: telas de Tarsila do Amaral e Leonilson, fotografias de Geraldo de Barros e Araquém Alcântara, além de vídeos, instalações e esculturas. 
 
 
Geraldo de Barros

Como o mundo aparece para nós? Por um lado, as obras de paisagem representam diversos lugares. Por outro, cada artista também se posiciona ao criar uma paisagem, pois figura um local a partir de seu ponto de vista. A paisagem mostra o encontro do artista com o mundo percebido por ele.

Entretanto, as obras de paisagem podem ser consideradas meros reflexos, como se a subjetividade do artista não fizesse parte de sua obra. Nas paisagens em perspectiva, nas fotos e nos filmes, temos a ilusão de ver diretamente a realidade, como se uma janela se abrisse para o mundo: esquecemos o enquadramento artificial e o ponto de vista escolhido.



Aldo Bonadei

Para romper com o ilusionismo da paisagem, vários artistas abandonaram as construções em perspectiva e as imagens fotográficas com profundidade visual para explorarem imagens planas. Em vez de janelas, aproximam-se dos mapas, evidenciando a artificialidade das próprias obras. Nesse sentido, os lugares são figurados em primeiro plano, não havendo uma fuga do olhar para o horizonte ao longe: a visão passeia apenas pela superfície opaca.

Reunimos aqui obras da coleção do MAM que exploram a paisagem no primeiro plano, revelando a subjetividade de cada artista na construção de sua visão de mundo. Essas peças se abrem ao mesmo tempo para fora e para dentro, mostrando que olhar o mundo é uma forma de se posicionar nele.

Felipe Chaimovich

 

 
José Leonilson

Essa sensação de elementos chapados na tela pode ser exemplificada nas pinturas Estrelas azuis (Para sol), de 2008, de Sandra Cinto, que utiliza acrílica e caneta sobre aglomerado, e em Paisagem sobreposta (2011), de Leda Catunda, feita com tinta spray sobre lona fixa em madeira, que fazem total supressão e não dão janela para perspectivas.
 

 
Estrelas Azuis (Para Sol) - 2008 - acrílica e caneta permanente sobre MDF



Paisagem sobreposta - 2011 - Leda Catunda

Outro destaque é o vídeo em loop Minhocão (2006), de Lia Chaia, em que a artista retira da boca imagens de edifícios entorno do Elevado Presidente Costa e Silva, conhecido apenas como Minhocão, uma via expressa elevada que liga as regiões central e oeste da cidade de São Paulo. Para aumentar a sensação de horizonte, a instalação Máquina Curatorial (2009), do argentino Nicolás Gaugnini – que possui quatro engrenagens com eixos de metal que sustentam quatro painéis de madeira cada - em que cada painel exibe, repetidamente, a impressão em carimbo Paisagem (2002), de Mabe Bethônico, o que dá a ideia de visualidade ampliada.



"Paisagem" - Impressão digital - 2002 - Mabe Bethônico

Ainda fazem parte da exibição objetos como Planos de viagem (1998), de Albano Afonso, que são páginas perfuradas de livro sobre um fundo de espelho; a instalação O Rio (2006), de Artur Lescher, que são dois rolos de papel para impressão que se espalham pelo chão; e a escultura Maquete de uma cidade cúbica (da série: Cidades Imaginárias), de Montez Magno, espécie de tabuleiro de xadrez com dados de diferentes dimensões, esta obra foi doada para o MAM durante a última SP-Arte.
 


"O Rio" - Artur Lescher
 

 
Serviço:

"Paisagem Opaca" 

Onde: Museu de Arte Moderna de São Paulo - Sala Paulo Figueiredo - Parque do Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº - Portão 3)

Quando: Até 11/09,
de terça a domingo, das 10h às 17h30 - Tel.: (11) 5085-1300

Quanto: R$ 6,00 - gratuita aos domingo

www.mam.org.br 















12 de agosto de 2015

Guignard - A memória plástica do Brasil moderno




O Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM - abre nesta terça-feira a mostra “Guignard – A Memória Plástica do Brasil Moderno”.
 
Dedicada a Alberto da Veiga Guignard, um dos maiores artistas brasileiros do século XX, a mostra instalada na Grande Sala do MAM, conta com 70 obras divididas em três gêneros, retrato, paisagem e natureza morta.
 
 
"Sabará" - 1961 - Guignard
 
Com curadoria de Paulo Sergio Duarte, a exposição visa a revelar, de forma didática para todos os públicos, quem foi o pintor e desenhista conhecido pelas pinturas de paisagens e mostrar seu legado para a arte moderna brasileira.

Reconhecido por ser um artista completo por atuar em todos os gêneros da pintura (retrato, autorretrato, paisagem, natureza-morta, de gênero e temática religiosa) e, ainda, por tratar de dois ou mais gêneros na mesma tela, Guignard alcançou a fama por retratar paisagens mineiras, estado que viveu a partir da década de 1940. O curador Paulo Sérgio Duarte elege a originalidade como o principal aspecto da produção do artista, que utilizou o decorativo nas telas que deram formas às obras, além dos tetos, painéis, móveis e objetos que pintou.
 

 
"Dança de Roda" - 1959 - Guignard

Guignard provoca interesse especial em colecionadores e alcança altas cifras no mercado, comparado aos prestigiados Alfredo Volpi e Di Cavalcanti. Um exemplo que está presente na mostra à disposição dos visitantes do MAM, mas foi pouco visto pelo grande púbico, é o painel "Paisagem Imaginante", de 1959, um óleo sobre madeira de 160 x 186 cm, de coleção particular. “Os retratos de Guignard, junto com as paisagens, são capítulos privilegiados da obra do artista, que tem um lirismo único em nossa modernidade, ” afirma o curador.
 
 
"Paisagem Imaginante" - óleo s. madeira - 1959 - Alberto da Veiga Guignard

Para criar um diálogo com a produção de Guignard, Felipe Chaimovich, curador do MAM, selecionou 26 obras do acervo do museu, de diferentes artistas e variados suportes, para a mostra "Paisagem Opaca", que são exibidas na Sala Paulo Figueiredo, pelo mesmo período.


Sobre Alberto da Veiga Guignard


O artista nasceu na cidade de Nova Friburgo (RJ), em 1896, com lábio leporino, uma má formação congênita que o atormentou por toda a vida. Aos 10 anos, ficou órfão de pai e, com o novo casamento da mãe com o barão Friendrich von Schilgen, mudou-se para a Alemanha, o que permitiu formação artística nas academias de Belas Artes de Munique, na Alemanha, e de Florença, na Itália, onde se libertou da rigidez acadêmica e marcou a passagem para o modernismo.

Com a conclusão do aprendizado técnico, voltou para o Brasil em 1929 e deu início à série de trabalhos sobre o Jardim Botânico, onde montou um ateliê, no Rio de Janeiro. Guignard, tornou-se um importante nome da década, ao lado de
Cândido Portinari, Ismael Nery e Cícero Dias. Além de orientar um grupo em que participavam Iberê Camargo, Vera Mindlin e Alcides da Rocha Miranda; em 1944, recebeu um convite de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, para instalar um curso de desenho e pintura no recém-criado Instituto de Belas Artes. Apaixonado pela cidade mineira mudou-se para lá e colaborou para a formação de importantes artistas que romperam com a linguagem acadêmica e consolidaram o modernismo nas artes visuais de Minas, onde viveu até a morte, em 1962.
 


"Jardim Botânico - 1937 - Guignard 

Sobre a Exposição "Memória Plástica do Brasil moderno"

Segundo o curador Paulo Sergio Duarte, a exposição no MAM é resultado de uma vasta pesquisa que resulta numa retrospectiva de conjunto de pinturas, desenhos e retratos de Guignard, feitos em diversos suportes como óleo sobre tela, madeira, cartão ou papelão; ponta-seca; carvão sobre papel; bico de pena; grafite sobre papel ou madeira; tinta bistre sobre papel; nanquim e aquarela sobre cartão; além de três fotomontagens.
 

 
"A Lagoa dos Cinquenta" -  1955 - Guignard

Os retratos, considerados por críticos como o gênero mais fértil do artista, formam a maior parte da produção e caracterizam-se pela simplificação das fisionomias já que Guignard não se prendia ao realismo fotográfico. As pinturas são de familiares, amigos, intelectuais, artistas e muitos autorretratos, em que ilustra o defeito congênito também em representações de Jesus Cristo.
 
 
"Auto-retrato" - 1952 - Guignard
 

 
"Cristo e Maria" - 1961 - Guignard

Outra característica desta área é o fundo das telas que não corresponde ao original e sim a uma invenção do artista como em "As Gêmeas" (1940), tela que retrata irmãs sentadas num sofá, tendo ao fundo a paisagem do bairro carioca de Laranjeiras. “Há muitos trabalhos do gênero que poderíamos abordar, mas os autorretratos, realizados repetidamente, apontam para o lábio leporino que, segundo biógrafos, interferiu decisivamente na existência do artista, particularmente, na vida amorosa”, explica o curador.
 
 
"As Gêmeas" - 1940 - Guignard

No gênero Paisagem, um dos mais reconhecidos do artista, estão em exibição obras famosas como os balões de gás no ar que remetem à infância do pintor. Encantado pela beleza das cidades históricas de Minas Gerais, como Ouro Preto, Sabará e Mariana, o artista realizou diversos quadros com as paisagens mineiras. “Nesta vertente percebe-se a ligação e a contribuição da pintura oriental, embora ele nunca tenha afirmado esta influência da pintura chinesa. É possível afirmar devido à falta de chão nas telas, pois o solo sempre desaparece e faz objetos como igrejas, casas, edificações e paisagens voarem como se fossem balões”, comenta Paulo Sérgio.
 
 
"Balões" - 1947 - Guignard

Na parte da natureza-morta, de número reduzido e com caráter fantástico, o artista tornou-se célebre ao pintar alegorias distantes do realismo e com uma paleta mais limpa do que costumava utilizar. Além das telas, nesta parte encontram-se as fotomontagens, os grafites, os trabalhos em ponta seca e em tinta bistre sobre papel. A especificidade do gênero fica por conta da representação de paisagens ao fundo, mistura que Guignard ousava a fazer: Os variados vasos de flores são pintados sempre à frente de montanhas, vales, rios e demais ambientações resultando numa obra que alcançou o respeito ao unir dois gêneros: natureza-morta e paisagem.
 
 
"Natureza morta" - 1933 - Guignard


Serviço


Exposição: "Guignard - a memória plástica do Brasil moderno"
 
Quando: Até 11/09 - de terça a domingo, das 10h às 18h.

Onde: Grande Sala do MAM - Parque do Ibirapuera, Portão 3 - Ibirapuera.

Quanto: R$ 6,00 - entrada gratuita aos domingos

 
 
 
 
 


 

5 de agosto de 2015

Goeldi / Jardim: A Gravura e o Compasso


Goeldi/Jardim: a gravura e o compasso

As coleções de gravuras presentes no acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo de Oswaldo Goeldi e Evandro Carlos Jardim, somam um pouco mais de uma dezena de estampas de cada artista.

Os trabalhos de Goeldi, na sua maioria, são dos anos cinquenta e os de Jardim pertencem à sua produção da década de sessenta. Os anos finais do primeiro e as gravuras mais inaugurais do mestre paulistano aproximam-se numa tangência sutil. Há uma precisão de cartógrafos na aferição das distâncias entre o aberto da geografia e as vistas de um mundo internalizado, medido pelos afetos, tanto nos descampados cariocas quanto na periferia de Interlagos, um bairro de São Paulo muito distante naquele momento. Os centros e as margens, nas gravuras e nas cidades, perdem seus significados habituais, e, com isso, dissipam-se as hierarquias. Como se pudéssemos imaginar a cartografia como uma atividade inquieta, regulada por anotações difusas, numa reorganização cotidiana e sempre inconclusa.
"Novembro" - Água-forte e Buril s/ papel - Evandro Carlos Jardim - 1964
Há em ambos, do ponto de vista da construção de suas matrizes, uma enorme economia de meios, que se revela nas linhas xilogravadas de Goeldi, frestas exatas de luz, e nas gravuras em metal de Jardim, que combinam as vezes a linha cortada, direta e indiretamente, com chapados xilográficos secos, erodindo a matéria corroída em contraluz. Tudo mediado pelas provas, também econômicas, diagramáticas, sem fogos de artifício. Os instrumentos e os procedimentos para esses dois artistas são prolongamentos de seus desenhos meditativos, são extensões, para esses gravadores caminhantes, de suas anotações, e nunca circunscrevem a relação das matrizes e de suas estampas à repetição mecânica. A invenção de seus objetos gráficos é sempre balizada por experiências imaginativas e fabricantes.
"Destino" - Oswaldo Goeldi

As figuras são muito diferentes nos imaginários dos dois artistas, assim como a escanção espacial relacionada às vistas da paisagem. Mas têm em comum a capacidade de instauração de um silêncio eloquente, que nos faz companhia por muito tempo, mesmo depois que não mais contemplamos diretamente esses mundos diferentes, varridos por uma luminosidade crepuscular, por uma vista crispada dos fenômenos. Talvez a força dessas elocuções nasça da vivência profunda dos meios elegidos por esses dois mestres, que nunca são escolhas táticas, mas encontros viscerais entre um temperamento e uma materialidade peculiar.
"Mudança Para Um Bairro Distante" - Xilografia e Água-tinta s/ papel - Evandro Carlos Jardim - 1967

A gravura produzida no Brasil, nunca é demais relembrar, é muito jovem, não somando nem dois séculos de prática efetiva. Goeldi e Jardim estão tão próximos de nós quanto dessas origens, se considerarmos as reflexões que suas obras nos levam a desenvolver sobre a carpintaria dessa história. A força dessa juventude está nessas gravuras e por isso elas são referências tão seminais, portadoras a um só tempo das qualidades ensaísticas do que se inaugura e da dignidade dos projetos solitários e essenciais movidos por uma consciência de que desenho e gravura também são lugares para habitar.

"Gato e peixe" - Xilogravura - Oswaldo Goeldi

As transfusões da noite mental para a noite física, as antecipações e apreensões em contraluz e os mergulhos nas luminosidades dos escuros convivem nesses dois mundos tão diferentes e estranhamente próximos das gravuras de Oswaldo Goeldi e Evandro Carlos Jardim. As cidades, nos anos cinquenta do Rio de Janeiro e dos sessenta em São Paulo, assim desbastadas, medidas, refletidas, numa cartografia do corte, nessa arqueologia anímica, revelam-se tão distantes e tão aproximadas nos seus desenhos e nos seus destinos.

Claudio Mubarac
Curador

"Tamanduateí" - Contraluz 2 - Gravura em Metal - 1980 - Evandro Carlos Jardim
"Chuva" - Xilogravura - Oswaldo Goeldi
Serviço
Goeldi/Jardim: a gravura e o compasso
Onde:  MAC-USP - Av. Pedro Álvares Cabral, 1301 - S.P. - Fone: 11 2648-0254  

Quando: Até 29/11/2015 - terça das 10h às 21h,  de quarta a domingo das 10h às 18h
 
Quanto: Entrada gratuita