Sobre as Sombras na Aquarela

Tudo começou com as nuvens.

A ideia surgiu da necessidade de mostrar a evolução de uma pesquisa feita sobre monocromia através da técnica da aquarela e colagem.

Foi à partir do meu olhar nas nuvens que surgiu o "momento sombras na aquarela". Após a escolha do suporte, as imagens começaram a brotar em minha mente de forma aleatória, de modo claro e objetivo, facilitando o desenvolvimento do trabalho. O fundo branco do papel, muitas vezes em destaque, realça as nuances e sobreposições das camadas, contrastando tons claros e escuros, assim como a luminosidade, algumas vezes oscilante, mais ou menos intensa, que brinca, sugerindo formas, movimentos e até mesmo sensações, destacando as características da aquarela aliada à colagem.

As inúmeras possibilidades que o tema oferece, associadas à técnica, tráz como resultado a simplicidade da proposta que, destacando a cor pura, em contraste com o papel, evidencia um grande prazer em criar.

Aline Hannun

9 de março de 2016

Guggenheim Museum NY


Guggenheim Museum - NY

O Guggenheim, na cidade de Nova Iorque, é mantido pela Fundação Guggenheim. Seu nome é em homenagem a Solomon Robert Guggenheim, grande magnata norte-americano, colecionador de arte,
criador do museu e da fundação. Nascido na Filadélfia, estado da Pensilvânia, viveu entre o fim do século XIX e meados do século XX.

O museu foi fundado no ano de 1937 e mantido, na época, apenas pela fundação Guggenheim com o objetivo de levar ao público todos os conhecimentos sobre a arte moderna e difundi-la com mais intensidade.


Solomon decidiu organizar um acervo que abrigasse obras abstratas e que representassem uma realidade singular e, para isto, fora guiado pela artista Hilla Rebay. Inicialmente, o colecionador mantinha sua coleção particular na suíte do Hotel Plaza, de Nova York, onde vivia. As primeiras obras a fazerem parte desde acervo particular, que posteriormente se transformaria num grande museu, foram as de Kandinsky, Rudolf Bauer e László Moholy-Nagy.



"Improvisation 28" - Vasily Kandinsky - oil on canvas - 111,4 X 162,1 cm - 1912 - Salomon R. Guggenheim Museum - NY


Idealizado e criado por Salomon, na década de 1950, com projeto do arquiteto americano Frank Lloyd Wright, o museu, que já abrigava um imponente e variado acervo artístico sobre arte moderna, deveria transpor através de sua arquitetura todas as transformações pelas quais as artes, em especial a moderna, haviam passado nos últimos 200 anos.



O Museu Guggenheim tornou-se famoso pelas linhas curvas da sua fachada, representando a arquitetura moderna em forma orgânica. Possui ambientes de espacialidades cheios de detalhes que estão presentes desde o piso de entrada até nas luminárias decorativas. A fachada do prédio, em si, é uma das obras arquitetônicas mais impressionantes e arrojadas do mundo.

O museu abriga importante coleção de arte moderna amealhadas pelo seu fundador e sua sobrinha Peggy Guggenheim no começo do século XX com um incalculável valor artístico e monetário.

Nos últimos anos de sua vida, Salomon Guggenheim dedicou-se, com exclusividade, a colecionar sua amada arte moderna.



"Tableau No. 2 / Composition No. VII - Piet Mondrian

As novas instalações foram entregues ao público em 1959, seis meses após a morte de Lloyd, que infelizmente não viu sua obra ser concluída.

O Guggenheim Museum está localizado em um dos mais importantes e charmosos endereços de Nova York, na 5ª. Avenida, esquina com a Rua 89, em frente ao Central Park.

Seu acervo conta com importantes obras de Picasso, Kardinsky, Monet, Katherine S. Dreier, Van Gogh e muitos outros.


Lee Ufan

Recentemente, numa política de expansão  internacional, foram criados o Museu Guggenheim Bilbao (Espanha), o Guggenheim Hermitage Museum, em Las Vegas (EUA), o Deutsche Guggenheim, em Berlim (Alemanha) e a Coleção Peggy Guggenheim, em Veneza (Itália). Está prevista, ainda, a construção de um novo polo em Abu Dhabi (Emirados Árabes), que será o maior museu da fundação americana, projetado pelo arquiteto Frank Gehry.

O museu foi designado, em 2005, um edifício do Registro Nacional de Lugares Históricos e, em 2008, foi reconhecido oficialmente como um Marco Histórico Nacional .


Atual exposição no Solomon R. Guggenheim Museum


Mostra em NY revela trajetória do Futurismo Italiano.

Umberto Boccioni - "State of Mind" - 1911


Futurismo é tema da exposição inaugurada em 21 de fevereiro, no Guggenheim.


A mostra “Italian Futurism, 1909-1944: Reconstructing the Universe” (“Futurismo Italiano, 1909-1944: Reconstruindo o Universo”) traz mais de 360 obras de 80 artistas, algumas expostas pela primeira vez fora da Itália.


Gino Severine - "Blue Dancer" - 1912

Em ordem cronológica, essas obras traçam a trajetória do movimento desde seu surgimento, em 1909, com a publicação do primeiro manifesto futurista de Filippo Tommaso Marinetti, no jornal francês Le Figaro, até o fim da Segunda Guerra Mundial.


Luigi Russolo - "Solidity of Fog" - 1912



Iniciado como movimento literário, o Futurismo logo se expandiu para englobar não apenas pintura e escultura, mas fotografia, cinema, publicidade, moda, música, teatro, arquitetura, cerâmica e outras manifestações, dentro do conceito de “obra de arte total".

A exposição fica em cartaz no Guggenheim até 1º de setembro de 2016.


Assista ao vídeo









2 de março de 2016

Marcel Broodthaers: "A Retrospective" no MoMA, NY



Sobre o artista Marcel Broodthaers

De nacionalidade belga, (1924-1976), dedicou-se à poesia até os 40 anos de idade e só então ingressou na área das artes visuais. Durante aproximadamente 12 anos, o seu trabalho manteve uma qualidade poética e senso de humor equilibrando o seu quadro conceitual. Em sua primeira exposição individual, o artista envolveu cópias não vendidas de seu mais recente livro de poesia, "Pense-Bête" (Auxiliar de Memória, 1964), em gesso, transformando-os em uma escultura. Trabalhava ao mesmo tempo com a poesia, escultura, pintura, livros de artista, gravura, e cinema, Broodthaers continuou inventando maneiras de dar forma material à linguagem.


De 1968 a 1972, o artista trabalhou no Musée d'Art Moderne, Département des Aigles (Museu de Arte Moderna, Departamento de Águias), um museu itinerante não dedicado ao seu trabalho como artista, mas ao papel da própria instituição e à função da arte na sociedade. O nome escolhido fez referência a um verso de poesia de Broodthaers, "O melancolia, Eagles castelo azedo". Criado em seu apartamento, o museu era composto apenas de cartões postais, apresentações de slides, engradados para transporte de obras e às vezes até caminhões estacionados na rua. Apresentando-se em locais diferentes, funcionou como uma instituição. O museu atingiu o clímax em 1972, com a exposição "Kunsthalle Düsseldorf", ("Figuras de Seção"), apresentando centenas de objetos de vários países e períodos diferentes que representavam as "Águias". Na frente dos objetos foi colocado um cartaz afirmando: "Esta não é uma obra de arte". Broodthaers encerrou o museu em 1972, quando expôs a "Documenta V" em Kassel.
 
Nos anos finais de sua vida, Broodthaers criou "décors", exposições unificando com certa frequência o trabalho passado com objetos emprestados para a ocasião.
 


Decor: "A Conquista" -  1975 - "Marcel Broodthaers: A Retrospective" - MoMA

Sobre "A Retrospective"

"A Retrospective", é o primeiro estudo abrangente da obra do artista a ter lugar em Nova York, reúne cerca de 200 obras, a maioria feita entre os anos de 1963 a 1975. Broodthaers reuniu obras fundamentais de todos os aspectos de sua arte ressaltando a complexa trajetória de sua carreira, que apesar de curta, provou ser extremamente influente para as futuras gerações de artistas.


"Instalação" - Marcel Broodthaers: "A Retrospective" - MoMA

Depois de se apresentar no MoMA, a exposição vai passar pelo Museo Nacional Centro de Arte Reina em Madrid, no mês de outubro de 2016, e no Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, em Düsseldorf, no início de 2017.
 

"Recreação" - Marcel Broodthaers: A Retrospective" - MoMA
 
A exposição foi possível graças ao importante suporte, um generoso financiamento fornecido pela Representação Geral do Governo de Flandres para os EUA. Da mesma forma, o seminário de acompanhamento contou com a colaboração do Fundo Annenberg Wallis do MoMA para a inovação na arte contemporânea, através da Fundação Annenberg.
 
Em 2011, o MoMA adquiriu a coleção "Daled", que define a arte conceitual americana e européia do final dos anos 1960 e 1970. A coleção trouxe para MoMA um agrupamento sem precedentes de mais de 60 obras de Broodthaers e um rico arquivo das coisas efêmeras e fotografias raramente vistas, tornando New York um novo centro para a apresentação e estudo da obra do artista.
 
Marcel Broodthaers: "A Retrospective" - MoMa, NY - em exposição até 15 de maio de 2016

 







24 de fevereiro de 2016

Ensaio fotográfico de Britt M "Retratos sobre o esquecimento"




Neta registra o cotidiano de esquecimentos da avó com Alzheimer em ensaio fotográfico.

Ser uma doença sem cura e sem explicação exata, torna o Alzheimer ainda mais difícil de ser compreendido. E é justamente neste cenário que o trabalho da jovem fotógrafa norueguesa Britt M. chama a atenção.

Com amor e sensibilidade, Britt M, registrou em um ensaio tocante os dias de luta e os momentos difíceis da vida de sua avó com a doença de Alzheimer. A fotógrafa eternizou o cotidiano para mostrar a transformação na vida da avó, que era uma pessoa ativa e forte, até que começou a perder a memória e veio o triste diagnóstico.




Com delicadeza, imagens mostram processo solitário de desconstrução da personalidade, causada pela doença.

Houve uma reviravolta na vida da avó. Ela iniciou um processo de esquecimento. No ensaio podemos ver através da fotografia como a neta consegue mostrar a escuridão, estranheza e solidão em torno de uma pessoa que deixou de ser quem era.



Com a doença, ela se esqueceu das atividades mais básicas, como se alimentar. Também não se lembrava do nome da neta. As fotografias mostram esse processo de desconstrução de quem ela era.




Em seu projeto, Britt M explicou: “Eu tinha uma avó que era sempre tão forte. Sempre tão assertiva e sempre tão contente. Eu tinha uma avó que viveu por mais de 20 anos após o falecimento de seu marido, que manteve suas rotinas normais, todos os dias. A avó, que tinha orgulho em se vestir bem, convidando pessoas para uma xícara de café e que regava seus vasos de plantas duas vezes por semana".


"Minha avó vestia malha em sua cadeira perto da janela, sempre usava chinelos dentro de casa e disse que fazia suas orações todas as noites, antes de ir para a cama sozinha. Então, um dia, eu tinha uma avó que não era forte, nem assertiva. Eu tinha uma avó que esqueceu de comer. Esqueceu-se de alimentar os pássaros. A avó ocasionalmente teve um tempo difícil para lembrar quem eu era".




"Mas, apesar do fato de que sua compreensão sobre o mundo estava indo embora, mesmo que sua memória estivesse desmoronando e os seus dias fossem mais cinza do que coloridos, ela ainda manteve as suas rotina".




Minha avó faleceu pacificamente, não muito tempo depois. Eu estava lá quando aconteceu. Esta é a minha representação artística do que parecia ver alguém tão perto de mim lutar com a escuridão, estranheza e a solidão de perder sua memória. Um retrato de como eles tentam desesperadamente segurar as poucas coisas familiares que deixaram, só para sentir como eram uma vez, mais uma vez”.

A representação artística da visão de Britt M. sobre a doença traz uma dosagem equilibrada de delicadeza e melancolia construída a partir da interação de personagem, objetos e cenários, características que podem ser vistas também em outros trabalhos da fotógrafa, divulgados no Instagram ou em sua página do Facebook.









17 de fevereiro de 2016

Coleção do Whitney Museum of American Art e Willem de Kooning




O Whitney Museum of American Art conta com mais de duas centenas de obras em exposição no sexto e sétimo andar representando parte do seu acervo.

Organizados em sequência cronológica, a apresentação é dividida em onze temáticas ou "capítulos". Cada capítulo leva o nome de uma obra, a qual incentiva o olhar do espectador e não de um movimento ou o estilo. A exposição elabora alguns dos temas, ideias, crenças e paixões que vem impulsionando artistas americanos em sua luta para trabalhar dentro e contra as convenções estabelecidas, muitas vezes envolvendo diretamente os seus contextos políticos e sociais. Obras de arte em todas as mídias são exibidas juntas, reconhecendo as maneiras em que os artistas desenvolveram vários modos de produção e dissolvidos os limites entre eles.


As obras em exibição refletem necessariamente recorde de aquisições e exposições do Whitney, que constitui uma espécie de memória e um coletivo que representa uma série de atitudes individuais, às vezes conflitantes, para o que a arte americana pode ser, dizer ou fazer em qualquer momento. Obras que raramente, ou nunca, foram mostrados aparecem ao lado de ícones amados como um desafio que está no cerne do compromisso do Museu em constante evolução e compreensão da arte americana.


No Whitney Museum, visitando o seu acervo, pude apreciar ao vivo obras de um dos meus artistas favoritos, o expressionista Willem de Kooning. Compartilho com vocês um pouco da sua vida e obras.



"Mulher de bicicleta" - 1952/53 - óleo, esmalte, e carvão sobre linho - 195 × 125 cm - Willem de Kooning


Sobre o artista - Willem de Kooning

Pintor norte-americano de origem holandesa. Um dos expoentes do expressionismo abstrato, particularmente chamado de pintura de ação. Nasceu em 24 de abril de 1904 em Rotterdam. Criado por sua mãe e padrasto, estudou na Rotterdan Academy of Finr Arts and Techniques, emigrou para os Estados Unidos em 1926, onde viveu como clandestino passando por um período de muita pobreza.

Em 1920 Willem trabalhou como assistente do diretor de arte de um departamento da Rotterdam Store. Foi um dos trinta e oito artistas escolhidos para desenhar e pintar 105 murais públicos na Feira Mundial de 1939 em Nova York.


Elaine and Willem de Kooning in studio, Parrish Art Museum

Aos 21 anos, em 1926, embarcou clandestinamente para os Estados Unidos. Instalou-se em Nova Iorque e viveu de pequenos expediente. Descobriu Greenwich Village, o bairro dos artistas, e ligou-se aos primeiros pintores abstratos americanos, decidindo, em 1935, dedicar-se inteiramente à pintura. Suas telas abstratas e figurativas sofreram influência do cubismo e do surrealismo de Picasso.


"Mulher sentada" - 1940 - óleo s canvas -  137 x 91 cm - Philadelphia Museum of Art

Na década de 30 adota diversos estilos simultaneamente, entregando-se à experimentação com grande vigor. Com pinceladas violentas, produz composições geométricas. Em 1937, juntou a partícula "de" ao seu nome para o tornar mais acolhedor e em 1938 começa a pintar formas masculinas e quadros abstratos coloridos. Em 1942 tornou-se amigo de Pollock em Nova Iorque.


"Pink Angels" - 1945 - óleo s. canvas -  Frderick R. Weisman Foundation - Los Angeles - CA.

Em 1947 conheceu Arshile Gorky, com quem partilhou um atelier e, tal como ele, se interessava pela pintura abstrata mais que pela figurativa. Ambos foram inspirados por Joan Miró e Pablo Picasso. Em abril de 1948 expôs pela primeira vez sozinho, na Charles Egan Gallery e passou a ser considerado, ao lado de Jackson Pollock, o líder da nova corrente, o expressionismo abstrato.



Sem título - 1949 - esmalte preto s. papel - 55.6 x 75.9 cm - Museum of Fine Arts - Boston

Em 1950 criou a pintura de grande formato "Escavação", alguns críticos consideraram a mais importante obra do artista. A tinta jogada sobre a tela, a justaposição de várias cores que destoavam entre si, a manipulação dos tons e a herança expressionista foram o que De Kooning usou para desintegrar a realidade – que nunca se apagou totalmente. Suas obras primavam pela emoção e movimento.


"Escavação" - óleo s. canvas - Isola di Rifiuti

Nessa mesma época lançou uma série sobre as mulheres intitulada "Women", que mostra formas femininas em pinceladas frenéticas, onde representou a atriz Marilyn Monroe, entre outras. 

Sua obra, "Mulher 1", a mais conhecida, é um mosaico de cores fortes, densa, que estuda a mulher. O rosto anguloso, os olhos repuxados, dentes ferozes, curvas destituídas de sensualidade, são de uma mulher que se posta entre o abstrato e o figurativo. Parecem representar tanto a reverência quanto o medo que o poder feminino infundia no inconsciente do artista. A telas dessa séria foram meticulosamente planejadas. O público estranhou o aspecto grotesco das representações femininas e a crítica reprovou a inclusão de elementos figurativos na arte abstrata. De Kooning trabalhou formas angulosas e bruscas, oferecendo um berrante contraste com a representação sensual e deificada, na arte tradicional, da figura feminina.


"Mulher 1" - óleo s. canvas - 1,47 x 1,92 cm - Museum of Modern Art - New York 

O artista causou polêmica com a série "Mulheres", e justificou-se: "Alguns artistas atacaram-me por pintar mulheres, mas eu acho que isso era problema deles, não meu. Não me sinto como um pintor não-objetivo".

A série seguinte foi sobre os negros dos Estados Unidos e novamente suas obras chocaram o público. Começou-se a falar também do "rosa de Kooning".


Sem título - 1948 - esmalte e óleo s. linho

Em 1961 instalou-se em um grande atelier, em East Hampton. Recusou categoricamente pertencer ou ser afiliado a movimentos artísticos, porém, é catalogado como artista do expressionismo expressionismo abstrato.

Em 1963 De Kooning mudou-se para Long Island onde houve seu declínio criativo. O artista não abandonou a pintura, mas começou a trabalhar com esculturas em Roma, no ano de 1969, época em que executou suas primeiras figuras trabalhadas com argila e fundidas em bronze.




Sem título - 1972 -  bronze com patina marrom - 376 x 641 x 203 cm - Matthew Marks Gallery - NY

Willem de Kooning morreu em 1997, em East Hampton, Nova York, sendo diagnosticado com o mal de Alzheimer. Em 2012 teve uma retrospectiva no MOMA, em Nova York.















16 de dezembro de 2015

Joan Miró: vida e obra




Joan Miró nasceu em 1893, na cidade Barcelona, e foi criado por uma família de artesãos. Apesar de demonstrar seu gosto pela pintura desde cedo, foi pressionado a entrar para uma carreira burocrática, o que lhe trouxe grandes problemas e em pouco tempo de trabalho, ao se ver preso a uma atividade monótona enquanto o país efervescia em correntes artísticas, Miró entrou em profunda depressão agravada por um ataque de febre tifoide.

O artista precisou de ajuda médica para voltar à atividade, mas foi o impulso necessário para largar tudo aquilo que lhe retirava o prazer de viver e entrar de vez para as artes.
 
Cursou a Escola de Belas Artes de Barcelona e a Academia de Gali. Joan Miró teve aulas com Francisco Gali, que lhe ensinou tudo sobre as escolas de arte moderna de Paris, lhe introduziu ao mundo da leveza bizantina nas igrejas da Catalunha e à arquitetura de Antônio Gaudí.


"O Carnaval de Arlequim" - 1924 - óleo s. tela

Apesar de ser reconhecido como pintor, Miró também se dedicou à obras em cerâmica e teve influência do dadaísmo, fauvismo e cubismo durante sua vida artística.


"Mulher" - Joan Miró

De 1915 até 1919, trabalhou em Montroig, cidade próxima a Barcelona, pintando paisagens, retratos e nus, mas foi em 1919 que sua vida mudou, quando se transferiu para Paris e dividiu sua vida entre Espanha e França.


"Retrato de V. Nubiola" - 1917

Joan Miró: vida do artista

Joan Miró, na França, foi amigo de Picasso, que o ajudou em suas pinturas, mas na época Miró não conseguia vender suas obras e estava sempre com suas economias no limite. Seus pais enviavam poucos recursos, para reafirmar a pouca vontade de incentivar sua vida artística. Miró passou fome por muitos dias e tentava aproveitar as alucinações que a falta de comida lhe dava pintando novos quadros e sentindo o mundo de um jeito diferente.
 
É possível ver estas experiências em "The Farmer’s Wife", um dos primeiros quadros do artista a mostrar grandes variações de escala ao longo do desenho, em que os grandes pés da esposa representam sua força no chão catalão.
 

"The Farmer's Wife" - 1922-23 - óleo s. tela

O 
surrealismo de Miró não era parecido com os traços perfeitos de Dalí e Magritte, mas sim focado no simbolismo e no minimalismo que conseguia aplicar em seus desenhos de formas inusitadas. Segundo o pintor, quando foi apresentado por André Masson ao círculo surrealista, ninguém reparou em suas obras – provavelmente ninguém as tinha entendido.

Mesmo assim, o movimento surrealista lhe foi muito importante. Miró relata. “Pintar com todas essas regras (do cubismo) me estressava um pouco. Eu queria ir além disso. O cubismo abriu muitas portas, mas depois dele a pintura se tornou algo muito estático, estava somente preocupada com o plasticismo e eu queria dar um salto sobre isso, que me parecia muito limitado. Então, com os surrealistas eu encontrei o que estava procurando. Eu pude deixar o plasticismo estrito para trás e ir além”.
 

"Nord - Sud" - 1917 - óleo s. tela

A Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial deixaram marcas no artista. Nesta época, ele estava vivendo na Espanha e lá produziu suas “pinturas selvagens”. Apesar disso, antes da eclosão da Segunda Guerra, Miró estava na França realizando novos trabalhos em tapeçaria e produzindo cenários de balés.
 

"Tapis de la Fundació" - tapeçaria criada como estudo do modernismo, na entrada da Fundação Miró, em Barcelona.
 
Após a Guerra Civil Espanhola, Miró já era conhecido no mundo todo e pintou murais de hotéis e universidades quando foi para Nova York. Ao retornar a Paris, em 1948, era um artista cultuado. Miró recebeu um prêmio de gravura na Bienal de Veneza, em 1954, e o mural que realizou para um prédio da UNESCO em Paris ganhou, quatro anos mais tarde, o Prêmio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1980, já perto de sua morte, Miró recebeu uma Medalha de Ouro de Belas Artes do rei Juan Carlos I.
 

UNESCO - dezembro 1957

Reza a lenda que enquanto estudava na Escola de Belas Artes de Barcelona, Miró
vendava os olhos e tentava pintar objetos sem nenhuma experiência visual. Utilizava o tato para se livrar das formas reais dos objetos escolhidos e dava liberdade para sua imaginação, se abstendo de regras para suas pinturas. Sua simbologia também é bem pessoal, com diversos personagens sendo representados por objetos característicos, como a representação do camponês catalão por um cachimbo, uma arma ou um boné.


"Interior holandês" - 1928
 
"Mais importante do que a obra de arte propriamente dita é o que ela vai gerar. A arte pode morrer; um quadro desaparecer. O que conta é a semente". Joan Miró
 
 
 
 





 

9 de dezembro de 2015

Biblioteca Pública de Birmingham



Biblioteca Pública de Birmingham é a maior biblioteca pública da Europa, tem 10 andares, jardim suspenso e wi-fi.


Localizada a cerca de 2 horas de Londres, a nova biblioteca de Birmingham deve atrair 3,5 milhões de frequentadores por ano, de acordo com as expectativas da organização. Com wi-fi gratuito em seus 10 andares e jardins suspensos, o prédio faz parte do plano de renovação da segunda maior cidade inglesa, mas já serve como referência a outras grandes bibliotecas no velho continente.
 
Inaugurado no dia 3 de setembro pela jovem paquistanesa Malala Yousafzai. A ativista, que foi levada para Birmingham para receber tratamento após ser baleada pelo Talibã por defender a educação de meninas em seu país, mora atualmente na cidade.

Em um momento em que o governo britânico tem fechado bibliotecas públicas pelo país, abatidas pela recessão, os números estimados para o espaço surpreendem.



A nova Biblioteca de Birmingham impressiona pela fachada, que contrasta com os edifícios históricos da região, e também pelos números. São 31 mil m2 de área e 400 mil títulos à disposição dos visitantes. É um centro de aprendizado, cultura e informação que convida o público a participar de cursos e assistir a peças de teatro, palestras e concertos. Projetado pela arquiteta Francine Houben, do escritório holandês Mecanoo, o edifício tem jardins suspensos e fachada de vidro envolvida por círculos de metal, que remetem à tradição artesanal desse município, berço da Revolução Industrial.
 


O interior é repleto de atrativos visuais, como volumes circulares, claraboias e escadas escultóricas. Admiradores de William Shakespeare encontram o Memorial Room, onde fica a extensa coleção de trabalhos do gênio inglês. O dramaturgo – nascido em Stratford-Upon-Avon, cidade na mesma região inglesa – é homenageado em um espaço histórico, remontado no topo do moderno edifício.

O ambiente intimista tem estilo vitoriano, com móveis e objetos de uma biblioteca de 1882 que foi realocada ali. É uma bela surpresa no topo do edifício.
 

 
Esta biblioteca tem um número significativo de coleções nacionais e internacionais como os arquivos Boulton e Watt. Destaca-se também o arquivo Bournville Village Trust, a coleção de livros infantis Parker, a coleção de bilhetes de transporte Wingate Bett, a recolha fotográfica Warwickshire e o arquivo do "British Institute of Organ Studies".

A sala fazia parte originalmente da segunda biblioteca da cidade, inaugurada em 1882 (após um incêndio ter destruído o primeiro prédio),  foi removida inteiramente e restaurada.
 


Apesar de a coleção shakespeariana ter se tornado maior do que a capacidade da sala já no início do século 20, ela ainda está abrigada no prédio. São 43 mil livros, incluindo as quatro primeiras coleções publicadas das peças teatrais do autor (conhecidos como "Folios") e edições raras de obras individuais impressas antes de 1709.

As prateleiras do espaço também dispõem de outros importantes acervos, que passam por digitalização para serem colocados à disposição do público. Alguns podem ser conferidos em mesas com touch screen, desenvolvidas especialmente para a biblioteca.

Uma das preciosidades é o arquivo da empresa Boulton & Watt, o mais importante da Revolução Industrial, com cerca de 29 mil desenhos industriais da época. No catálogo online, há menção da venda de uma máquina a vapor para a cunhagem de moedas para o Brasil, em 1811.

 

 
Boulton, Watt and Murdoch Statue

Entre as mais de 8,2 mil publicações datadas antes de 1701, estão três livros impressos em 1479 pelo primeiro gráfico inglês, William Caxton, em perfeito estado. A edição do "Birds of America" ("Aves da América"), publicado pelo naturalista John James Audubon na primeira metade do século 19, figura entre os mais caros do mundo devido sua raridade e é um dos destaques.

A biblioteca pública de Birmingham é a única no Reino Unido a ter uma das coleções nacionais de fotografias, com mais de 3,5 milhões de imagens.

Em outubro, o espaço deverá receber escritores renomados como Lionel Shriver (autora de "Precisamos Falar sobre Kevin" e "O Mundo Pós-Aniversário") e Carol Ann Duffy (escritora e poetisa escocesa, primeira mulher a ser indicada como "Poeta Laureado" do Reino Unido) durante o festival de literatura de Birmingham.

A expectativa é que a biblioteca se torne um novo destino turístico na região central da Inglaterra.

Conforme o diretor, Brian Gambles, o projeto totalizou £ 188,8 milhões (cerca de R$ 680,95 milhões) – £ 4,2 milhões (R$ 15,15 milhões) a menos do que o orçado. "É sobretudo um local de transformação: sobre como temos transformado a vida das pessoas, com educação, e sobre como tornar uma biblioteca para a era digital", ressalta.

Assista ao vídeo





2 de dezembro de 2015

Fotos de Thomas Roma no Parque de Cruising Gay no Brooklyn



Parque de Cruising Gay no Brooklyn por Thomas Roma

Apesar de já ter exposto no Museu de Arte Moderna e no Centro Internacional de Fotografia, e de ser o fundador e diretor do programa de fotografia da Universidade Columbia, Thomas Roma ainda não havia participado de uma exposição solo em Nova York. Com a abertura da Steven Kasher Gallery, suas obras já podem ser apreciadas na exposição "In the Vale of Cashmere".

Fotos em preto e branco tiradas entre 2008 e 2011 na área do Prospect Park, um lugar conhecido como Vale of Cashmere. Essa área do parque é fechada, acessível apenas por buracos na cerca, e é conhecida no Brooklyn como um local de "cruising" para homens gays.
 
Construído como um playground para crianças da região no final do século XIX, o parque hoje abandonado está coberto de mato mutante que só cresce no solo urbano. Foi criado um grupo para arrecadar recursos para reativar o local que sobreviveu ileso ao constante ciclo de renovações de Nova York, tanto que andar por ele dá uma sensação cinematográfica de estar de volta ao passado. Essa qualidade naturalmente anacrônica, amplificada pela fotografia em preto e branco e a luz filtrada pelas folhas, estão evidentes nas fotos de Roma.
 


"Essas imagens são sobre uma espécie de fugacidade", disse Roma em sua casa localizada no Brooklyn, entre o parque e o Cemitério Greenwood, onde ele e a esposa criaram o filho Giancarlo. "Conhecemos essa luz. Você sabe que essa luz direcional vai desaparecer. Você sabe disso porque está vivo, está no mundo, não porque é um fotógrafo."

Em entrevista Roma falou sobre luz, fotografia, a realização de coisas que não são boas para o crescimento como artista e ser humano. Falou sobre como foi visitar o parque três ou quatro vezes por semana, fazer essas fotos no curso de três anos e se tornar vulnerável às outras pessoas como um ato de amor. Em certo ponto, ele contou sobre fotografar um homem no parque enquanto a noite caía. ("Sei de um lugar onde ainda há alguma luz", o homem falou. "Venha comigo.")

 


Roma falou sobre a natureza extremamente política do tema e o que significa para um artista heterossexual branco fazer esse tipo de trabalho em 2015. Como resultado os retratos de "In the Vale of Cashmere" são belíssimos e suas paisagens líricas.

Thomas Roma: "Achei que levaria alguns meses, mas foram três anos e meio. Só fotografei umas seis ou sete pessoas nos primeiros meses. Eu fazia principalmente paisagens. Eu estava lá o tempo todo. Eu era alguém que era visto".

"A exposição de todos os retratos está (com o tempo usado para tirar as fotos) entre um e seis segundos. Foi a segunda vez que usei um tripé em todos esses anos, mas eu queria o tripé, pois isso era parte da minha fantasia. Eu não queria ser visto como alguém espreitando, que poderia aparecer do nada e tirar uma foto, e sim como alguém em pé atrás da câmera".



"Esse parece um lugar onde seria difícil fazer as pessoas concordarem em posar para uma foto. Parece que o isolamento é a principal razão para frequentar o lugar".

"Muitas das pessoas que acabei fotografando me viram de longe, deram algumas voltas e finalmente decidiram andar até onde eu estava caso eu estivesse tirando fotos de uma árvore ou algo assim. E eu converso com as pessoas".
 


Foto de Carl Spinella no apartamento de Dean Street, em 1974, retirada do livro de Thomas Roma The Waters of Our Time.

"Estou tentando ser invisível. Você vê uma foto, lê um romance, você pensa sobre o autor – até o autor te dar permissão para esquecer dele, pois ele escreveu tão bem que o romancista desaparece. Quero desaparecer nesses termos".
In the Vale of Cashmere está em exposição na Steven Kasher Gallery de Nova York até 19 de dezembro.


Sobre o artista


Thomas Roma (1950), mericano, fotógrafo trabalha desde 1974 explorando os bairros e instituições da sua terra natal, Brooklyn, fotografando cenas de igrejas, metrôs e vida cotidiana, usando uma câmera caseira.
 
Atualmente é professor de Artes, titular da Universidade de Columbia School 's, e Diretor do Departamento de Fotografia, fundado por ele. Ensinou fotografia na Universidade de Yale, Universidade de Fordham, A União Cooper, e na Escola de Artes Visuais.
 
Foi premiado com dois Guggenheim Fellowships e lançou dois livros, um no Museu de Arte Moderna e outro no  Centro Internacional de Fotografia, em Nova York.

Seu trabalho é destaque em inúmeras coleções, incluindo o Museu de Arte Moderna, o Museu San Francisco de Arte Moderna, do Instituto de Arte de Chicago, o County Museum of Art de Los Angeles e o Canadian Centre for Architecture em Montreal.

Para uma de suas coleções de fotografias, intitulada "Venha domingo", Roma participou com mais de 150 trabalhos religiosos em 52 igrejas no Brooklyn durante um período de três anos.
 


Thomas Roma na Sicília - 1986